quarta-feira, 13 de junho de 2012

A luta de todo cristão



A partir da queda do homem, descrita no livro de Gênesis, toda a humanidade, em qualquer período da história teve que lidar com o problema do pecado e suas terríveis conseqüências. É verdade que nem todo mundo tem a mesma compreensão da palavra pecado que o judaísmo e o cristianismo têm, e também é verdade que muitos rejeitam inclusive essa terminologia “pecado”. Mas é inevitável que todos tenham que lhe dar com esse mal, não apenas externo, mas essa luta interna, que procura dominar e possuir por completo a todos, sem exceção. Alguns em nossa época procuram combater o pecado negando-o veementemente, e vemos isso a partir de uma terrível trilogia niilista: hedonismo – permissividade - relatividade.

O livro de Gênesis é o fundamento da revelação de Deus. Os primeiros 11 capítulos nos fala sobre a natureza de Deus, o papel do cosmos criado e o papel da humanidade como seu reflexo na gerência de tudo. Acima de tudo, porém, nos mostra como um mundo classificado por Deus como bom veio a degradar-se cada vez mais por causa do pecado. O capítulo 3 mostra especificamente como o pecado entrou no mundo e suas conseqüências diretas na criação. Já o capítulo 4, nosso texto de reflexão conta a história do primeiro homicídio.

Caim era irmão mais velho de Abel. O primeiro era lavrador por ofício enquanto o segundo pastor de ovelhas. Ambos decidiram ofertar ao Senhor o produto do seu trabalho, entretanto, o Senhor ficou contente apenas com Abel e sua oferta, ao passo que Caim foi rejeitado. O único detalhe que o texto nos traz é que a oferta de Abel envolvia a primazia, a primeira cria do rebanho, uma referência àquilo que ele tinha de melhor (Gênesis 4:1-16). Porém o Novo Testamento nos traz duas contribuições para entender melhor o porquê da aceitação e rejeição da oferta de um e do outro. Vejamos:

I Jo3:12 – João nos diz que as obras de Abel eram justas e de seu irmão Caim más, ou seja, Abel fazia o que era bom e reto aos olhos de Deus ao passo que seu irmão andava por outro caminho.

Hb11:4 – o autor confirma que Abel tinha o testemunho de justo, e procedia corretamente.

Os 3 textos nos mostram que a qualidade da oferta a Deus está diretamente ligada a pessoa que a oferece. A disposição do coração conta muito, uma distinção enorme com as divindades e deuses das religiões politeístas, uma vez que Deus se revela como um Ser relacional e moral.

A reação de Caim confirma essa primeira constatação. O texto nos diz que ele muito se irou ao ponto do seu próprio semblante revelar o que acontecia dentro de si. A conversa de Deus com Caim procura devolver-lhe a razão. Por que você está assim carrancudo? Se você agir corretamente não é certo que será aceito? Não havia acepção de pessoa, mas a sua rejeição estava diretamente ligada à forma que ele vivia, aos seus pecados e rebeldia. O convite de Deus a Caim é que ele se arrependa e converta-se da maneira que procedia. 

Deus foi mais enfático e disse: Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. (v.7) A advertência para Caim e todos os demais descendentes de Adão é sobre como lidar com o pecado, nós devemos dominá-lo e não permitir que aconteça o contrário. Ou seja, as nossas vontades, ou os nossos instintos, não devem ser o nosso senhor, mas devem estar sujeitas a nós. Ao invés de sermos compulsivos ou permissivos, devemos ter domínio-próprio e viver com sobriedade. O autor de Hebreus de forma semelhante nos lembra de que o pecado nos importuna de forma persistente e que nós devemos nos livrar dele (Hb 12:1).

A advertência nos traz duas metáforas que pode nos ajudar a compreender a luta que está envolvida:

1ª A primeira imagem é de uma casa. O texto diz que o pecado está à porta, na entrada procurando uma forma de invadir o interior da casa e fazer morada. É interessante que Jesus faz uma referência a mesma metáfora, porém agora ele está do lado de fora batendo na porta para entrar na casa e ter comunhão com o residente, não mais numa relação de domínio e escravidão como no caso do pecado (Apocalipse 3:20).

2ª A segunda imagem é do pecado como um animal selvagem que está à espreita e que precisa ser dominado. A versão da Bíblia de Jerusalém diz o seguinte: “o pecado é como um animal acuado que te espreita”. Aqui existem mais referências, como no caso da serpente que tentou Eva e a imagem que o apóstolo Pedro nos traz do diabo como um leão rugindo e andando ao nosso redor procurando oportunidade para atacar (IPe 5:8). Porém a imagem do pecado é como algo que precisa ser devorado, enquanto as outras duas imagens nos mostram a necessidade de resistir ao diabo, mas todas são unânimes na necessidade de vigilância!

Ou seja, Caim tem de escolher entre dominar sua inveja ou ser dominado e consumido por ela. Porém a decepção de Caim não era consigo mesmo. Ele invejava seu irmão mais do que estava disposto a concertar sua vida. Ele transfere a sua culpa para o próximo, indiferente da inocência ou não do outro. Ao invés de elevar o padrão Caim procurou rebaixá-lo, anulando aquele por quem Deus tinha autoestima. Como se o padrão não fosse o próprio Deus!

“Ao negar a advertência, Caim defronta-se com o pecado e o desenvolvimento do mal que o leva a violência. Atrás do fratricídio está o ódio, atrás do ódio a inveja, e atrás da inveja o orgulho ferido.” Paul Hoff

A obstinação de Caim não parou por aí. Ao ser argüido pro Deus sobre o paradeiro de seu irmão ele responde com toda indiferença: Por acaso sou eu responsável por meu irmão? Ao ser dominado pelo pecado Caim passa a tornar-se indiferente também ao seu próximo. A negação de Caim por esta responsabilidade revela que Deus estava fazendo uma inferência a uma diretriz anterior de cuidado do próximo, em outras palavras, uma convocação a compaixão.

A Escritura deixa bem clara essa relação de interdependência de toda a criação. Ao homem fora dado à responsabilidade de dominar e desenvolver toda a criação, ao passo que a existência do homem estava condicionada ao cuidado e a preservação da mesma, a boa gerencia da criação. No mesmo passo, o homem foi criado para ser relacional, e a sua primeira experiência foi o casamento, passando pela família e o desenvolvimento da sociedade, até a formação de povos e nações distintas. Todo o desenvolvimento se deu através das relações interpessoais, através de direitos e deveres, num ambiente de proteção e cuidado mútuo.

O homicídio praticado por Caim o levou a duas situações extremas: o conformismo com o pecado, ou seja, completamente dominado e subserviente a ele, e a indiferença para o próximo, e no caso específico seu parente. A história nos mostra como aquilo que fazemos está diretamente relacionado ao nosso próximo. Ainda que não seja um caso extremo de homicídio, o nosso pecado afeta diretamente o nosso semelhante. A Bíblia está cheia de metáforas para mostrar essa relação, como por exemplo, quando compara a igreja há um corpo e este corpo é composto por muitos membros, enquanto a sua saúde está diretamente relacionada à pureza e a qualidade dos relacionamentos. Ou seja, a qualidade da minha vida afetará diretamente aquele que está ao meu redor.

Mas como o mundo que vivemos lida com isso? 
O exemplo de Friedrich Nietzsche no livro - O anticristo
Capítulo II
O que é bom? – Tudo que aumenta, no homem, a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder.
O que é mau? – Tudo que se origina da fraqueza.
O que é felicidade? – A sensação de que o poder aumenta – de que uma
resistência foi superada.
Não o contentamento, mas mais poder; não a paz a qualquer custo, mas a guerra; não a virtude, mas a eficiência.
Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio de nossa caridade.
E realmente deve-se ajudá-los nisso.
O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos malogrados e dos fracos – o cristianismo...
Capítulo VI
Chama-se cristianismo a religião da compaixão. – A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece...
Nietzsche tornou-se indiferente ao próximo. O importante pra ele é dar vazão a evolução que está em curso, toda ela guiada pelo acaso, e levará os melhores àquilo que ele denomina poder. Isso pra ele é o homem livre, o homem que se entrega ao seu instinto e nega a caridade.

Pergunto. Alguma semelhança com Caim? Para muitos, Nietzsche é o pai do pós-modernismo. E acredito que isso seja verdade mesmo, pois na sua época suas idéias eram facilmente rejeitadas.

Como iremos resistir ao espírito de Caim na nossa sociedade? Não há outra forma se não seguirmos o conselho do autor de Hebreus: precisamos de muita coragem!
 
Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.
Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.
Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue... Hebreus12:1-4

quinta-feira, 15 de março de 2012

Planos de Deus e vontade humana


Uma das coisas mais comuns de acontecer na fé cristã é a confusão entre a vontade de Deus e a vontade humana, achar que é Deus quem está falando quando na verdade é a minha vontade pessoal. Em alguns casos, as pessoas enfrentam certa dificuldade em lhe dar com essa tensão e equívoco, por isso segue uma breve reflexão para entendermos o que a Bíblia fala sobre o assunto através da vida do apóstolo Paulo.

Vamos olhar três experiências de Paulo:

1ª experiência de Paulo
Assim, as igrejas eram fortalecidas na fé e, dia a dia, aumentavam em número.
E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.
E, tendo contornado Mísia, desceram a Trôade.
À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos.
Assim que teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho.  Atos 16:5-10
 2ª experiência de Paulo
Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras, por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo; de maneira que, desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo, esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio; antes, como está escrito: Hão de vê-lo aqueles que não tiveram notícia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a seu respeito.
Essa foi a razão por que também, muitas vezes, me senti impedido de visitar-vos.
Mas, agora, não tendo já campo de atividade nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia. Romanos 15:18-24
3ª experiência de Paulo
Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente.
Por isso, quisemos ir até vós ( pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas duas ); contudo, Satanás nos barrou o caminho.
Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?
Sim, vós sois realmente a nossa glória e a nossa alegria! I Ts 2:17-20 (Paulo, Silvano e Timóteo escreveram a carta)
As três experiências de Paulo citadas acima mostram como muitas vezes as nossas vontades, por mais nobres que sejam, e ainda que sejam para promover o reino de Deus, não serão realizadas.

Talvez isso seja óbvio pra você! Ou talvez seja difícil de entender, mas como pode ser assim, eu estou querendo promover o reino de Deus, servir a Deus... e ainda assim as coisas não ocorrem como eu quero? 

Ou então, você pode se perguntar, eu tinha certeza que era a vontade de Deus, por que deu errado?

Vamos entender o que estava acontecendo com Paulo.
O apóstolo estava dedicando a sua vida pra pregar o evangelho de Jesus e fazer discípulos em lugares que ainda não haviam sido evangelizados. Ele viajava bastante, pregava, discipulava os convertidos e organizava as novas igrejas. Ele nunca fazia isso sozinho, as vezes ele contava com ajuda financeira para realizar essa missão, outras ele tinha que trabalhar construindo tendas para se sustentar. Em alguns lugares ele ficava meses e em outros anos. Em alguns lugares ele era bem aceito e em outros era expulso das cidades. Havia momentos em que Deus operava grandes sinais e maravilhas através de Paulo, haviam outros que Paulo era preso, açoitado e apedrejado.

O apóstolo havia compreendido que sua vida pertencia integralmente a Deus, ou seja, tudo o que ele tinha oportunidade de fazer era para glorificar a Deus, seja através dos momentos bons ou ruins que ele passava. Isso não quer dizer que ele era passivo diante da vida, muito pelo contrário, mas que o apóstolo tinha um bom conhecimento de que Deus era quem sustentava e movia a sua vida, e de forma misteriosa, ainda que não entendesse, até mesmo nas experiências de sofrimento e frustração que o acometiam, ele percebia que Deus não havia perdido o governo, muito menos o interesse por ele, e que de alguma forma, ainda que ele não conseguia entender, tudo estava colaborando para a promoção e avanço do reino de Deus. Em certa ocasião, Paulo diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Rm 8:28” E mais pra frente ele diz que esse propósito é fazer-nos parecido com Jesus.

Outra coisa que Paulo havia compreendido era que os planos de Deus são mais elevados que a sua vontade, ele deveria estar atendo e aberto para conhecer e aceitar esse “plano superior”, ou, mais completo, ainda que isso lhe custasse abrir mão de sua vontade. Veja mais uma fala de Paulo a respeito disso: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12:2” Isso nos dá uma pista importante, Paulo percebeu que a vontade dele era inconstante e condicionada a uma temporalidade e ocasionalidade que o cegava ou distorcia sua mente/compreensão. Veja outra recomendação de Paulo: “buscai as coisas lá do alto... Pensai nas coisas lá do alto. Cl 3:1-2” O que Paulo está dizendo e que a nossa forma de enxergar o mundo deve ser encharcada pela consciência do reino cósmico de Deus e seus propósitos, pois quem governa e sustenta a vida não é o acaso, mas o próprio Deus. E que não existe forma melhor de viver do que seguir as instruções do próprio Autor da vida.

Mas uma pergunta continua no ar. De onde Paulo tirou essas idéias?
Primeiramente precisamos lembrar que ele era judeu, em seguida fariseu e perseguidor de Jesus, e que por fim ele se tronou cristão. Como essas informações podem nos ajudar?

Como judeu Paulo pertencia ao povo da Aliança com Deus, a única nação na face da terra monoteísta até o início do primeiro século. Ele conhecia os livros da lei, a história de como Deus se revelara e participara da história de Israel e as advertências dos profetas. Vejamos algumas dessas passagens:
O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR. Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito... O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos. Pv 16:1-2,9 (um livro de sabedoria, ano 900 a.C.)
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos. Is 55:8-9 (um livro profético de Isaías, ano 700 a.C.)
Veja como Paulo aplicou essa verdade: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!
Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?
Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?
Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Rm 11:33-36
Como fariseu, Paulo se aplicara ao estudo das Escrituras e a observação da mesma. O zelo pela Palavra de Deus se apoderara do apóstolo. Entretanto, o grupo religioso ao qual Paulo pertencia começou a se perder, o conhecimento das Escrituras começou a se tornar um subterfúgio para subjugar o seu próprio povo. Jesus confrontou constantemente os interesses reais deste grupo, pois embora houvesse uma fachada de devotos zelosos, muitos deles eram hipócritas e opressores. A caminhada de Paulo não foi muito diferente, ele tornou-se perseguidor da igreja de Jesus. Ou seja, a vontade de Paulo era completamente contraria aos planos de Deus. Talvez esse tenha sido o maior exemplo e a lição que Paulo tomou sobre reconhecer os planos de Deus a despeito de suas vontades.
Ao meio-dia, ó rei, indo eu caminho fora, vi uma luz no céu, mais resplandecente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam comigo. E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim. At 26:13-18
"Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões." Isso foi o que Jesus falou para Paulo. Dura coisa é tentar se debater e se opor à vontade Deus, aos planos do Senhor. Parece que é isso que precisamos ouvir na nossa sociedade, numa geração hedonista e egoísta, precisamos ouvir a voz de Jesus que nos diz - DURA COISA É LEVANTAR-SE CONTRA A VONTADE DE DEUS.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mente renovada e corpo consagrado, o desafio da Igreja



Recentemente eu li uma entrevista da revista Ultimato com o bispo Robison Cavalcantti, realizada no ano de 1985, e ele dizia o seguinte: “Não precisaríamos de dez milhões (de evangélicos) para influenciar. O mundo é de minorias organizadas, mas com minorias desorganizadas fica difícil.” Hoje somos quase 30 milhões de evangélicos e qual a contribuição que temos dado a nossa sociedade? Eu acredito que ela exista, mas está muito aquém do potencial que existe na Igreja de Jesus.

Enfrentamos diversos desafios nos quatros cantos do Brasil, estes problemas vão desde o alto grau de corrupção na nossa sociedade que alcança todos os setores e não apenas o político, e que desemboca numa terrível crise moral, na qual os valores se tornam abstratos e relativos em excesso para discernimos o certo do errado, o que é virtuoso daquilo que é desonesto e vexatório. A injustiça social continua enorme e os problemas estruturais de nossas cidades parecem intermináveis. Inclusive a abundância de nossos recursos naturais parecem ameaçadas e cada vez mais distantes do povo. Nós poderíamos continuar aqui relatando tantos outros problemas graves, mas o que me veio a mente foi como a Igreja pode responder frente a estes desafios que estão diante de nós.

Nós temos duas opções diante de nós. A primeira que não me parece nada cristã seria ignorar esses desafios, conformar-se a essa situação e procurar viver nossas vidas alienados aos problemas sociais que nos cercam, procurando garantir o nosso conforto indiferente a dor do outro. A segunda opção, que me parece mais interessante e genuinamente cristã é aquela que eu gostaria de apresentar aos irmãos e encorajá-los. Vejamos como a igreja primitiva enfrentou os desafios de sua geração.

Eu gostaria de compartilhar dois textos bíblicos, escrito pelo mesmo autor, o apóstolo Paulo:

1)    O primeiro texto é escrito para uma igreja nova, recente, e após 10 anos de ministério missionário Paulo procura encorajar essa comunidade que ele não conhecia pessoalmente, mas da qual já ouvira falar muito bem (por Áquila e Priscila).
“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:1-2
Após fazer uma exposição teológica sobre a obra de redenção de Jesus Cristo e a nova vida que encontramos nEle, o autor passa a mostrar como essa nova vida aponta para responsabilidades sociais, para com a promoção do reino de Deus e o confronto do mesmo frente ao reino parasita das trevas que tenta boicotar o governo de Deus.

Existe uma tensão de valores e propósito de vida. Essa tensão tem início na cosmovisão do sujeito e esta é determinada pela forma com a qual nos relacionamos com o Criador, como filhos obedientes ou como rebeldes.

E aqui a convocação, ou súplica de Paulo, é para que nós cristãos não nos sucumbamos frente aos padrões de um mundo anti-Deus, de um mundo sobre a influência de satanás que promove o mal e corrompe a imagem de Deus no homem. O que é bem característico do diabo que veio “roubar, matar e destruir” a imagem de Deus na humanidade, que foi criada a semelhança do seu Criador e incumbida da responsabilidade de governar (cuidar) e dominar (desenvolver) toda criação de Deus.

A forma que a Palavra de Deus nos apresenta para resistir o mal, em todas as suas facetas que se apresentam a nós passa necessariamente por duas experiências, que devem ser repetidas quantas vezes necessárias e por que não diariamente: o arrependimento e a consagração.

O arrependimento envolve mudança de mente, perceber o mal e abandoná-lo. E ao mesmo tempo ele é a plataforma para que brote a consagração, a dedicação de tudo o que somos a Deus, um verdadeiro sacrifício, que envolve tanto o nosso intelecto quanto o nosso corpo, tudo o que somos, todas as nossas faculdades.

Muitas vezes pensamos em arrependimento e consagração apenas como uma atitude individual para a salvação. Mas parece que o que Paulo está nos comunicado é maior que isso, começa com um sentimento de pertencimento ao reino de Deus e desemboca com a promoção deste Reino, começa com uma experiência individual e desemboca numa vida comunitária rica e transformadora. Pelo menos é isso que o apóstolo está comunicando no restante da carta.
“Irmãos, precisamos nos arrepender mais e nos conformar menos.”
2)    O segundo texto que me desperta a atenção foi escrito 10 anos após a carta aos romanos, e foi dirigida para um indivíduo apenas, seu discípulo Timóteo.
“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pela vontade de Deus, de conformidade com a promessa da vida que está em Cristo Jesus, ao amado filho Timóteo, graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.
Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia.
Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti.
Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos.
Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.
Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho, para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e mestre e, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.” II Timóteo 1:1-12.
Este é um texto muito dramático. Paulo está vendo a sua morte e ao mesmo tempo tem o desafio de encorajar o seu “filho” Timóteo, para que ele não fraqueje frente aos desafios que estão diante dele. A intenção é que o exemplo de Paulo lhe sirva de coragem e esperança.

E aqui tem dois detalhes que eu gostaria de atentar com os irmãos. O primeiro é que Timóteo tinha uma vocação conhecida e experimentada anteriormente, Paulo relembra o seu discípulo o “dom” que este havia recebido anteriormente. Tudo leva a crer que este dom estava relacionado ao pastorado e ensino. E o segundo detalhe que me chama a atenção é que para o exercício de sua vocação, Deus não havia deixado Timóteo (e todos os seus filhos) destituído (s) de capacitação para tal. Paulo afirma em auto e bom som que Deus concedeu aos seus filhos coragem, poder, amor e equilíbrio (moderação) para que vivam de modo digna do evangelho, ou seja, que a nossa vida seja coerente com os valores que encontramos e experimentamos no reino de Deus.

O ensino de Paulo está em conformidade com o ensino de Jesus. Ele disse que enviaria um Consolador, o Espírito Santo, que concederia poder e autoridade para seus discípulos promoverem as mesmas obras que Ele havia realizado.

O que eu gostaria de realçar aqui irmãos é que nos falta mais coragem. Não que ela esteja ausente de nossas comunidades, mas que precisamos ser mais atrevidos para anunciar o evangelho, se opor a injustiça, compartilhar nossos valores e ideais. Não podemos nos sucumbir e ser amedrontados, pelo contrário, precisamos resistir e se opor ao mal. As Escrituras estão cheias de advertências para não temermos, e Jesus acrescenta dizendo: tende bom ânimo! Vocês enfrentarão oposições, aflições e ameaças, mas não se acovardem. Eu venci o mundo!

Irmãos, a situação que a igreja primitiva vivia não era muito diferente da nossa. Imagine uma sociedade pagã (politeísta), com padrões morais questionáveis, violenta, com imoralidade sexual de tudo quanto a tipo, com miséria e toda forma de injustiça (incluindo escravidão). A situação que vivemos hoje não difere tanto assim, talvez nós sejamos capazes de promover o mal com mais velocidade e amplitude que as gerações anteriores, e talvez sejamos mais culpados por termos o evangelho exposto na nossa sociedade. A igreja primitiva enfrentou esses mesmos desafios. Eles conseguiram se arrepender e se consagrar a Deus numa sociedade tão perversa quanto a nossa. Eles foram corajosos mesmo sendo minoria. 

Por fim, eu gostaria de lembrar que a igreja não tem um fim em si mesma. E aí está um desafio grande para nós cristãos. A igreja é um lugar de ter comunhão, fortalecer a fé e de formação dos mais novos (a juventude e os novos convertidos). A nossa missão está fora dos templos. Ela se encontra em nossos lares, no trabalho de cada um, no exercício da cidadania, na produção de cultura, no trato com o meio ambiente e assim por diante.

Que o Senhor nos ajude a cumprir a nossa vocação de maneira honesta e que toda a Criação se beneficie com isso, como diz Paulo, que toda a Criação veja a revelação (o posicionamento) dos filhos de Deus frente a um mundo em desordem por conta do mal.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um convite à sabedoria


Reflexão do texto bíblico - Tiago 3:13-4:10

Tiago começa o texto fazendo uma pergunta: Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? A pergunta dele é capciosa, ou seja, ele deseja lançar uma questão que irá surpreender os mais apressados e desavisados, e lançar bases para instruir seus leitores, os cristãos que estão espalhados por todas as nações.

Como poderíamos comprovar que alguém é realmente sábio? Talvez você pense em aplicar alguns testes para se certificar disso, mas Tiago não tem isso em mente. A sabedoria a qual ele se refere está diretamente relacionada à vida, a forma com a qual associamos conhecimento teórico com a prática diária, ou seja, como agimos ao tomar decisões. A preocupação do autor está na coerência de vida, como eu me relaciono com as àquilo que considero verdade. Talvez essa seja uma das maiores crises que enfrentamos hoje em nossa geração, temos tanto conhecimento e informação ao nosso dispor e tanta dificuldade em lidar com honestidade diante tudo isso.

Para Tiago, a qualidade de vida de uma pessoa define sua sabedoria. E aqui ele não está se referindo ao conforto material ou sucesso profissional, mas a qualidade do caráter, que interfere diretamente na qualidade dos seus relacionamentos, na misericórdia para com o próximo e na postura humilde diante todos.

Semelhantemente aos livros proféticos do Antigo Testamento, Tiago repreende os cristãos que se julgam sábios e simultaneamente abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta. O profeta neotestamentário está erguendo a voz contra a incoerência no meio do povo de Deus, que ao se declararem seguidores da verdade caem em contradição com toda confusão e tipo de coisas más que praticam.

Como todo profeta de Deus, Tiago não apenas acusa seu povo, mas propõe uma alternativa para os cristãos que estão vivendo de forma desleixada e sem comprometimento algum com o evangelho de Jesus, ele exorta seus leitores ao arrependimento. O arrependimento proposto envolve uma mudança completa de vida, a começar por uma reaproximação de Deus e um consequente lamento pela miséria na qual se encontra, e aqui novamente não há nenhuma relação com a situação financeira do indivíduo, mas sim o seu estado moral falido.

Para Tiago está bem claro que a fonte de toda sabedoria é o próprio Deus, para ele em nenhum outro lugar se encontrará um referencial constante de verdade e justiça. O caminho para se achegar e se manter junto a esta fonte é o caminho da humildade, reconhecer que existe um Senhor e que cabe bem ao homem temê-lo. A conclusão do profeta está em harmonia com os provérbios do sábio rei Salomão: Para ser sábio, é preciso primeiro temer a Deus, o SENHOR. Os tolos desprezam a sabedoria e não querem aprender (Provérbios 1:7, verificar também 2:6-7,9:10, 14:8, 15:33, 21:30).

Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração (Tiago 4:8).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A imitação* de Cristo, um bom propósito para a vida



*A palavra imitação neste texto tem a conotação de viver como Jesus viveu, segui-lo como discípulo ao ponto de reproduzir seus valores e ensinos.

A virada do ano é repleta de promessas e alvos renovados. A mudança é salutar para a psique humana, uma idéia de renovo, de novas possibilidade e mudanças. Esse conceito é muito forte na fé cristã, porém a carga de valor e significado não está na mudança meramente de hábitos, condição social ou perfil estético, vai além, e está intimamente relacionada com mudança de mente, do grego metanoia e normalmente entendido como arrependimento. A renovação também está atrelada a esperança na fé cristã, a esperança da consumação da nossa salvação, da renovação da criação, da instalação definitiva do reino de Deus, um Reino de justiça e paz.

O que podemos sonhar com o novo ano? Qual deve ser o propósito, o planejamento da Igreja?

Meditando em Filipenses 2:5-11
 
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Um pouco de história
o apóstolo Paulo está em prisão domiciliar em Roma. O ano é de 61 AD. Paulo não é mais um novato na fé, já se passaram 25 anos desde a sua conversão, 3 viagens missionárias dentro do Império Romano foram realizadas e muitas igrejas plantadas e cartas escritas. Paulo tornou-se um apóstolo para os gentios, sem deixar de pregar e insistir com os Judeus na compreensão destes de que Jesus é o Messias, o Cristo profetizado e esperado. Agora Paulo está preso aguardando sua audiência com César, preso pela acusação de judeus de que ele havia blasfemado contra a religião judaica e causado tumulto nas cidades por onde passava anunciando outro Senhor, não César.

Paulo escreve aos crentes de Filipos, uma igreja plantada por ele mesmo há aproximadamente uma década na sua segunda viagem missionária (At 16:12-40). Lídia foi a primeira filipense convertida. Após a sua conversão, Lídia abriu a sua casa para os missionários Paulo e Silas. Nesta cidade, ambos missionários foram presos e chicoteados por expulsarem o demônio de uma escrava que dava lucro aos seus donos com adivinhações. Na prisão, o carcereiro toma conhecimento do evangelho e a seguir toda a sua família se torna cristã e é batizada, tendo contribuído para isso um terremoto e a honestidade dos missionários.

A carta
A carta de Paulo é bastante pessoal e revela um pouco de como Paulo lidava com a situação de estar preso por pregar o Evangelho de Jesus Cristo. E o texto base é fundamental para entendermos o que Paulo quer dizer com a expressão: “que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Jesus”.

Para isso, vamos fazer um exercício de averiguação dos textos bíblicos que envolvem essa cena e também um exercício imaginativo. 

Convido os leitores para começarmos pela amizade entre Paulo e Lucas. Lucas, o médico , historiador, autor de um dos Evangelhos de Jesus e do livro de Atos dos apóstolos, cristão e missionário, foi citado por Paulo em 3 cartas: Colossenses (4:14), Filemom (1:24) e II Tomóteo (4:11), e em ambas Paulo estava preso quando as escreveu. Lucas é citado como alguém querido, presente neste momento difícil e cooperador no ministério.

Colossenses (4:14)
Uma pessoa querida para Paulo
Filemom (1:24) 
Uma pessoa presente no momento difícil (prisão)
II Tomóteo (4:11)
Um cooperador no ministério

 A história da igreja em Filipos foi relata por Lucas, no capítulo 16 do livro de Atos, e o interessante é que a história da ida para Filipos e boa parte dos eventos foram narrados em primeira pessoa, ou seja, Lucas, o autor estava presente. E o mais interessante é que quando Paulo e Silas deixaram a cidade, dá a impressão de que Lucas continuou acompanhando a Igreja que nascera, pois a narrativa continuou em terceira pessoa.

Atos 16:10
Assim que (Paulo) teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino (Macedônia), concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho.
Atos 16:12
Nesta cidade (Filipo), permanecemos alguns dias.
Atos 16:40
Dirigiram-se para a casa de Lídia e, vendo os irmãos, os confortaram. Então, partiram.

Por que eu estou falando de Lucas?  
Porque Lucas narrou a vida, obra, crucificação, ressurreição e ascensão de Jesus, ou seja, todo o evangelho. Lucas apresentou Jesus como Salvador e Senhor por meio do evangelho, não deixando dúvidas de que Jesus era o Messias prometido, e que não há salvação por meio de outro senão por Jesus. O evangelista também escreveu como os discípulos se comportaram diante a ascensão de Jesus e a missão recebida de fazer discípulos de todas as nações, surgindo assim a Igreja, o corpo de Cristo.

O intrigante é que na crucificação de Jesus, duas das três falas de Cristo durante o sofrimento na cruz foi repetida por Estevão, o primeiro mártir cristão. Vejamos:


Jesus
Estevão
Tipo de morte
Crucificação
Apedrejamento
1ª Fala
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Lc 23:34
Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus. Atos 7:56
2ª Fala
Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. Lc 23:43
Senhor Jesus, recebe o meu espírito! At 7:59
3ª Fala
Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou. Lc 23:45
Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu. At 7:59

É impressionante como Estevão foi fiel testemunhando Jesus Cristo até sob o risco de pena capital, não considerando a sua vida em nada mais preciosa do que testemunhar a Jesus como Salvador e Senhor. Mais impressionante é como Ele lembrou e imitou a Cristo na sua morte. Os dois sofreram mortes violentas e injustas, pois foram acusados com testemunhas falsas. Duas falas são idênticas, apenas com a ordem invertida. Estevão tem uma visão de Jesus ao lado direito do trono de Deus, uma referência a glória e o poder de Jesus ressuscitado, agora em pé para receber aquele que não se envergonhou dEle. Com certeza essa segurança fortaleceu a fé de Estevão que então entrega seu espírito a Jesus, o mediador perante o Pai, àquele que justifica, e em seguida roga perdão aos seus agressores. O discípulo vai cada vez mais se conformando a Jesus, até que consegue reproduzir a compaixão de Jesus na sua morte.

Um detalhe importante é que um desses a quem Estevão roga perdão é o próprio Paulo, cujo nome aparece à primeira vez registrada como Saulo (variação hebraica – Saulo e grega – Paulo), aquele que consentiu e aprovou a morte de Estevão, provavelmente um dos instigadores do julgamento de Estevão e da perseguição aos cristãos (At 8:3 e 9:1-2). Lucas registra que Paulo assolava a Igreja, ou seja, a perseguição não era apenas ideológica, mas violenta, uma demonstração do seu ódio ao cristianismo e esforço para erradicar a fé cristã.

Porém a oração de Estevão foi ouvida e prontamente atendida, pouco tempo depois, Paulo com cartas dos líderes religiosos judeus para apresentar nas sinagogas e prender os cristãos, sai a “caça” desses, o termo usado por Lucas é que Paulo “respirava ameaças de mortes contra os discípulos do Senhor”. Porém na estrada a Damasco, no meio de sua missão, Paulo é surpreendido com uma revelação do próprio Jesus. “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Ou seja, a perseguição de Paulo contra os cristãos era contra o próprio Senhor Jesus (Atos 9). A cegueira de Paulo que durou 3 dias é uma metáfora para a sua cegueira espiritual, e mostra o drama de sua conversão.

O que eu quero dizer com toda essa digressão? 
Que ao escrever aos crentes de Filipos, Paulo tinha em mente a imagem de Estevão, e é muito provável que os cristãos dessa igreja conhecessem bem a história do primeiro mártir e da conversão de Paulo. Ou seja, para Paulo, para os Filipos, a proposta para a vida cristã não era algo impossível de se alcançar ou distante da nossa realidade. Pois, o mesmo sentimento que havia em Cristo habitou também em Estevão, agora habitava em Paulo e deveria habitar em cada cristão.

Como podemos imitar Cristo nos dias de hoje, no nosso país e cidade, um lugar que não nos oferece risco de vida e agressão física?

O missionário brasileiro Ronaldo Lidório, ao traduzir o Novo Testamento do original grego para a língua Limonkpeln (um dos dialetos do povo Konkomba, em Gana, África), percebeu que há dois termos largamente usados no Novo Testamento, que muitas vezes estão juntos e que retratam o caráter cristão: proclamação e testemunho. O termo grego para ‘proclamação’ é ‘Kerygma’: a forma estratégica e inteligível de comunicar a mensagem do evangelho. É a Igreja se preparando, estudando e analisando as possibilidades de comunicar o evangelho a um grupo, seja uma pessoa, família ou povo. Isto é Kerygma.

Já ‘Martíria’ é o termo grego para ‘testemunho’ e sempre está ligado ao Kerygma. Entretanto ‘Martiria’ não é uma proclamação inteligível e estratégica como encontro de casais, acampamentos evangelisticos, evangelismo explosivo ou células familiares. Martiria é testemunho de vida, a personalidade transformada pelo Senhor. É domínio próprio em casa, ser justo com os empregados, ser brando no falar. É ser a imagem de Jesus.
 “A Igreja foi chamada para ser primeiramente Martírica – viver com fidelidade tudo aquilo que crê - e só então assumir uma postura Kerygmática.” Ronaldo Lidório

Agora é conosco
Leitor, voltemos a olhar o texto base. Parece que agora, olhando para ele com o background dos crentes de Filipos e de Paulo, podemos perceber que “ter o mesmo sentimento de Cristo” não significa um mero sentimentalismo, uma experiência espiritual (religiosa) desconectada da vida. Pelo contrário, o apóstolo está falando sobre a mudança da disposição mental que o cristão deve ter frente à obra de Jesus, e como isso deve afetar a sua vida. Nós vimos isso em Estevão, em Paulo, e cabe a nós entender como a nossa vida deve se moldar a Jesus, aos seus ensinos e valores, em contraste com o mundo.

Algumas aplicações
  1. Não somos chamados para imitar Jesus no sacrifício vicário, nem com penitências. Já está consumado!
  2. Nossa convocação é para nos tornarmos semelhantes a Jesus, absorver seus ensinos e valores, andar por onde Jesus andou. Um chamado à santidade!
  3. É possível que na caminhada cristã os nossos interesses e sonhos se choquem com a nossa vocação, e quando isso ocorrer, seremos então chamados para nos esvaziar de nós mesmos, abrir mão em prol de uma vocação mais excelente. “Humilhou-se a si mesmo, tornando obediente até... (no caso de Jesus – morte)”.
  4. Por fim, somos chamados para olhar não somente para o Jesus que se esvaziou e se humilhou, mas para o Jesus que ressuscitou e foi glorificado, honrado com o nome sobre todo nome. Esse Jesus que venceu é a garantia que nos também participaremos da sua vitória. Somos chamados por Jesus para ter bom ânimo!