terça-feira, 6 de março de 2012

Mente renovada e corpo consagrado, o desafio da Igreja



Recentemente eu li uma entrevista da revista Ultimato com o bispo Robison Cavalcantti, realizada no ano de 1985, e ele dizia o seguinte: “Não precisaríamos de dez milhões (de evangélicos) para influenciar. O mundo é de minorias organizadas, mas com minorias desorganizadas fica difícil.” Hoje somos quase 30 milhões de evangélicos e qual a contribuição que temos dado a nossa sociedade? Eu acredito que ela exista, mas está muito aquém do potencial que existe na Igreja de Jesus.

Enfrentamos diversos desafios nos quatros cantos do Brasil, estes problemas vão desde o alto grau de corrupção na nossa sociedade que alcança todos os setores e não apenas o político, e que desemboca numa terrível crise moral, na qual os valores se tornam abstratos e relativos em excesso para discernimos o certo do errado, o que é virtuoso daquilo que é desonesto e vexatório. A injustiça social continua enorme e os problemas estruturais de nossas cidades parecem intermináveis. Inclusive a abundância de nossos recursos naturais parecem ameaçadas e cada vez mais distantes do povo. Nós poderíamos continuar aqui relatando tantos outros problemas graves, mas o que me veio a mente foi como a Igreja pode responder frente a estes desafios que estão diante de nós.

Nós temos duas opções diante de nós. A primeira que não me parece nada cristã seria ignorar esses desafios, conformar-se a essa situação e procurar viver nossas vidas alienados aos problemas sociais que nos cercam, procurando garantir o nosso conforto indiferente a dor do outro. A segunda opção, que me parece mais interessante e genuinamente cristã é aquela que eu gostaria de apresentar aos irmãos e encorajá-los. Vejamos como a igreja primitiva enfrentou os desafios de sua geração.

Eu gostaria de compartilhar dois textos bíblicos, escrito pelo mesmo autor, o apóstolo Paulo:

1)    O primeiro texto é escrito para uma igreja nova, recente, e após 10 anos de ministério missionário Paulo procura encorajar essa comunidade que ele não conhecia pessoalmente, mas da qual já ouvira falar muito bem (por Áquila e Priscila).
“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:1-2
Após fazer uma exposição teológica sobre a obra de redenção de Jesus Cristo e a nova vida que encontramos nEle, o autor passa a mostrar como essa nova vida aponta para responsabilidades sociais, para com a promoção do reino de Deus e o confronto do mesmo frente ao reino parasita das trevas que tenta boicotar o governo de Deus.

Existe uma tensão de valores e propósito de vida. Essa tensão tem início na cosmovisão do sujeito e esta é determinada pela forma com a qual nos relacionamos com o Criador, como filhos obedientes ou como rebeldes.

E aqui a convocação, ou súplica de Paulo, é para que nós cristãos não nos sucumbamos frente aos padrões de um mundo anti-Deus, de um mundo sobre a influência de satanás que promove o mal e corrompe a imagem de Deus no homem. O que é bem característico do diabo que veio “roubar, matar e destruir” a imagem de Deus na humanidade, que foi criada a semelhança do seu Criador e incumbida da responsabilidade de governar (cuidar) e dominar (desenvolver) toda criação de Deus.

A forma que a Palavra de Deus nos apresenta para resistir o mal, em todas as suas facetas que se apresentam a nós passa necessariamente por duas experiências, que devem ser repetidas quantas vezes necessárias e por que não diariamente: o arrependimento e a consagração.

O arrependimento envolve mudança de mente, perceber o mal e abandoná-lo. E ao mesmo tempo ele é a plataforma para que brote a consagração, a dedicação de tudo o que somos a Deus, um verdadeiro sacrifício, que envolve tanto o nosso intelecto quanto o nosso corpo, tudo o que somos, todas as nossas faculdades.

Muitas vezes pensamos em arrependimento e consagração apenas como uma atitude individual para a salvação. Mas parece que o que Paulo está nos comunicado é maior que isso, começa com um sentimento de pertencimento ao reino de Deus e desemboca com a promoção deste Reino, começa com uma experiência individual e desemboca numa vida comunitária rica e transformadora. Pelo menos é isso que o apóstolo está comunicando no restante da carta.
“Irmãos, precisamos nos arrepender mais e nos conformar menos.”
2)    O segundo texto que me desperta a atenção foi escrito 10 anos após a carta aos romanos, e foi dirigida para um indivíduo apenas, seu discípulo Timóteo.
“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pela vontade de Deus, de conformidade com a promessa da vida que está em Cristo Jesus, ao amado filho Timóteo, graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.
Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia.
Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti.
Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos.
Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.
Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho, para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e mestre e, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.” II Timóteo 1:1-12.
Este é um texto muito dramático. Paulo está vendo a sua morte e ao mesmo tempo tem o desafio de encorajar o seu “filho” Timóteo, para que ele não fraqueje frente aos desafios que estão diante dele. A intenção é que o exemplo de Paulo lhe sirva de coragem e esperança.

E aqui tem dois detalhes que eu gostaria de atentar com os irmãos. O primeiro é que Timóteo tinha uma vocação conhecida e experimentada anteriormente, Paulo relembra o seu discípulo o “dom” que este havia recebido anteriormente. Tudo leva a crer que este dom estava relacionado ao pastorado e ensino. E o segundo detalhe que me chama a atenção é que para o exercício de sua vocação, Deus não havia deixado Timóteo (e todos os seus filhos) destituído (s) de capacitação para tal. Paulo afirma em auto e bom som que Deus concedeu aos seus filhos coragem, poder, amor e equilíbrio (moderação) para que vivam de modo digna do evangelho, ou seja, que a nossa vida seja coerente com os valores que encontramos e experimentamos no reino de Deus.

O ensino de Paulo está em conformidade com o ensino de Jesus. Ele disse que enviaria um Consolador, o Espírito Santo, que concederia poder e autoridade para seus discípulos promoverem as mesmas obras que Ele havia realizado.

O que eu gostaria de realçar aqui irmãos é que nos falta mais coragem. Não que ela esteja ausente de nossas comunidades, mas que precisamos ser mais atrevidos para anunciar o evangelho, se opor a injustiça, compartilhar nossos valores e ideais. Não podemos nos sucumbir e ser amedrontados, pelo contrário, precisamos resistir e se opor ao mal. As Escrituras estão cheias de advertências para não temermos, e Jesus acrescenta dizendo: tende bom ânimo! Vocês enfrentarão oposições, aflições e ameaças, mas não se acovardem. Eu venci o mundo!

Irmãos, a situação que a igreja primitiva vivia não era muito diferente da nossa. Imagine uma sociedade pagã (politeísta), com padrões morais questionáveis, violenta, com imoralidade sexual de tudo quanto a tipo, com miséria e toda forma de injustiça (incluindo escravidão). A situação que vivemos hoje não difere tanto assim, talvez nós sejamos capazes de promover o mal com mais velocidade e amplitude que as gerações anteriores, e talvez sejamos mais culpados por termos o evangelho exposto na nossa sociedade. A igreja primitiva enfrentou esses mesmos desafios. Eles conseguiram se arrepender e se consagrar a Deus numa sociedade tão perversa quanto a nossa. Eles foram corajosos mesmo sendo minoria. 

Por fim, eu gostaria de lembrar que a igreja não tem um fim em si mesma. E aí está um desafio grande para nós cristãos. A igreja é um lugar de ter comunhão, fortalecer a fé e de formação dos mais novos (a juventude e os novos convertidos). A nossa missão está fora dos templos. Ela se encontra em nossos lares, no trabalho de cada um, no exercício da cidadania, na produção de cultura, no trato com o meio ambiente e assim por diante.

Que o Senhor nos ajude a cumprir a nossa vocação de maneira honesta e que toda a Criação se beneficie com isso, como diz Paulo, que toda a Criação veja a revelação (o posicionamento) dos filhos de Deus frente a um mundo em desordem por conta do mal.
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