segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Despindo-se do velho homem

“Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.
Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.
Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo. Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.
Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.”
Efésios 4:17-32
A descrição que Paulo faz do homem alienado de Deus é alguém que está distante da própria humanidade. Ele vive na vaidade de seus pensamentos, soberbo e cheio de si mesmo, alienado de Deus, uma vida teimosa em ser aquilo para o qual ele não foi criado – ser coisa, viver no caos. Esse homem perdeu a vergonha e se entregou aos vícios, não tem mais controle de si mesmo. Insensível, não tem aspiração da eternidade, não é solidário, não busca o bem, a muito já se entregou a toda sorte de maldade.

Carlos Drumond de Andrade também faz uma descrição pessimista do homem moderno que deixou de ser homem.
Com que inocência demito-me de ser eu
que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
...
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
trecho do poema ‘Eu, Etiqueta’

A este homem caído e desumano, o evangelho chega com uma proposta poderosa de humanização, o resgate em sua integralidade da condição de homem. A transformação proposta é semelhante à metamorfose, uma mudança completa de mente, um despir-se diante de Cristo. Não há dúvida que esta obra não é fruto de um exercício meramente intelectual, mas uma obra do Espírito Santo. O Espírito renova a mente e concede graça, para que a verdadeira humanidade possa ser experimentada.

O velho homem que percebe a sua real condição e se desnuda diante de Cristo, alcança misericórdia. Este homem nu, nascido de novo, é destinado à retidão. Sedento e faminto por justiça ele é saciado (Mt. 5:6) a medida que é revestido desta nova vida, com conseqüências diretas em seu cotidiano.

Este homem novo é capaz de dominar suas paixões, confrontar a mentira com a verdade, não deixar ser vencido pelo mal e promover o bem para o outro, ainda que sofra prejuízo. Paulo está falando desta nova possibilidade de vida, na qual as obras da nossa natureza pecaminosa (Gl 5:17-25) são substituídas pelo bom trato para com o próximo, ao ponto de trazer a referência da bondade e do perdão de Deus para o nosso dia a dia.
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